quarta-feira, 2 de setembro de 2009

TUDO ISTO ME PARECE UM SONHO: um herói, uma equipe e um país sem memória

por Marcelo Matos de Oliveira


Peji de Caboclo


O professor Geraldo Sarno fez conferência! Um filme didático-godariano latinamente brasileiro que empena o "cinema de autor" a la franceuse e instaura um "cinema de equipe" com cara de terceiro-mundo.

Exatamente no momento em que boa parte dos documentários brasileiros se apoiam nas imagens dos homens famosos e suas trajetórias de vida (Wally Salomão, Valdick Soriano, Simonal...), Geraldo elege o grande homem sem imagem: Abreu e Lima. Você sabe quem foi Abreu e Lima?

A equipe está reunida. Têm-se muitos textos deixados pelo herói revolucionário, mas há apenas uma imagem: um quadro, pintando por não-sei-quem, provavelmente inverossímil, pousado na capa de uma revista. Solução óbvia: vamos até onde está o quadro para poder filmá-lo. Instala-se a parafernália cinematográfica, mas a imagem é frágil ela não poder suster nada. Destituído daquilo que lhe funda, o cinema entra aqui no seu mais sublime paradoxo: como fazer um filme sobre aquele que não tem imagem?

Diante da impossibilidade de filmar o grande homem, o que resta? Chama-se um ator (Wilson Mello) para fazer o papel de Abreu e Lima e reconstituir a ambiência de seu leito de morte. Se primeiro Geraldo e equipe partem para a ficção, é para descobrirem - mais a frente - que esta é uma solução rasteira que não será levada adiante - apesar das imagens ficcionais retornarem durante a montagem. No caso de “Tudo Isto...”, a ficção só pode ser uma reconstituição e, assim sendo, ela é apenas representação, não tendo a potência de fazer o passado atualizar-se no presente, da lembrança fazer-se percepção, da memória fazer-se matéria audiovisual. É melhor, então, sugerir a morte da representação: "General, hoje é um bom dia para morrer".

Destronada a ficção, vai-se atrás daqueles que conhecem a história latino-americana para ouvirmos o que sabem e para que nos levem aos lugares que testemunharam a presença de Abreu e Lima. É assim que vamos conhecendo um pouco o personagem, onde estudou, em que revoluções se meteu... O passado aqui ensaia uma atualização, mas os espaços vazios e a linguagem racional falada ainda são incapazes de fazer o passado atualizar-se. Os signos da memória dizem respeito a uma outra esfera do ser. A verdadeira memória, aquela que traz consigo a verdade - no sentido proustiano do termo - necessita de uma ação involuntária, espontânea, para que se faça matéria. Nunca é o sujeito que lembra, mas é a mémoria que faz o sujeito recordar. Nunca é o sujeito que busca a verdade, mas é a verdade que encontra o sujeito.

Tira-se o personagem do ambiente ficcional e joga-o no mundo da vida, no hoje, no agora. Uma tentativa lindamente tacanha para compreender o paradoxo no qual o filme se coloca. Neste momento, andando pela rua, o ator Wilson Mello, travestido de Abreu e Lima, pergunta a algumas pessoas quem ele é. Surgem alguns nomes. Ninguém acerta. Mas quando os transeuntes lhe devolvem a pergunta, o ator esquece o nome do personagem que interpreta. Tudo cai por terra, a representação desmorona e sabemos o grave problema em que estamos metido. Diferentemente da Venezuela onde, através de uma tela de laptop, ficamos sabendo que Hugo Chaves não deixa a população esquecer de Abreu e Lima; no Brasil, ele não é mais lembrado. Um general que teve tamanha importância na luta pela independência do Brasil foi apagado da memória dos brasileiros. Brasil: o país do esquecimento. “Tudo isto...” parece apontar então para um documentário sobre um país sem imagens.

No entanto, isto não é de todo verdadeiro, pois é apenas o niilismo em que Geraldo se coloca que nos gera esta impressão. O niilismo daquele que um dia acreditou que o Brasil teria algo a ensinar para a humanidade. No entanto, é numa conversa com o professor Vamireh Chacon na beira-mar, com as ondas quebrando atrás deles, que a contradição se libera e o filme insinua um mundo de possíveis. Não apenas uma aula de cinema, mas uma aula sobre a América Latina. Se não há mais no que acreditar, se não há mais esperanças (niilismo negativo), há ainda a necessidade de seguir filmando, de seguir lutando. Mesmo destronado da convicção de que o Brasil é o país do futuro, cabem a Geraldo e sua equipe através do trabalho e da vontade realizarem um filme para que a próxima geração, a nossa geração, saiba em que país vive (niilismo positivo).

Mas como atualizar o passado de um país sem memória? Depois de filmar e narrar o quadro onde está representado a Batalha de Carabobo, a representação dá o seu último suspiro. A partir deste ponto não se trata de procurar qual a melhor imagem que pode representar Abreu e Lima.

A equipe mais uma vez está reunida e está decidindo um importante momento para o documentário: a câmera que estava fazendo o making of é elevada ao estatuto de câmera 2 no filme. Parece ser o momento em que a equipe se dá conta que eles estão na busca de algo que são eles mesmos e não atrás da melhor maneira de representar o herói. Trata-se menos de saber quem foi Abreu e Lima e mais de produzir um conhecimento sobre o ser brasileiro. Neste momento, a equipe se abre para o inesperado.

Conhecer Abreu e Lima transforma-se, então, num pretexto para falar do Brasil e a Venezuela transforma-se no nosso alter-ego, uma espécie de contraste para que se fique mais evidente quem somos nós.

Adentrando o interior pernambucano, atrás da cultura dos engenhos e da cana - sobre a qual Abreu e Lima muito refletiu -, Geraldo tenta explicar a proposta do documentário: fazer um filme clássico, mas chegando à beira da forma que se quer criticar. O paradoxo mais uma vez insiste em fazer-se presente. As duas mãos do diretor se encontram. Roçam produzindo inquietações. Não seria este momento em que Geraldo, formado no tempo em que os intelectuais pensavam quase que exclusivamente de maneira dialética, tenta sair da própria dialética? Não seria este momento em que o pensamento do documentário se recusa a se fazer de maneira binária através dos três termos tese-antítese-sintése? Neste momento, a dialética parece dar lugar a um pensamento ambíguo.

Chegando a um antigo engenho, a cultura da cana insiste em mostrar as contradições dialéticas: a lógica do senhor e a lógica do escravo, a lógica aquele que domina as terras e a lógica dos homens explorados na sua força de trabalho. Mas também a lógica do artista, pois os mesmos homens que são explorados pelo árduo trabalho da cana, colorem o sem cor da palha seca com as cores do maracatu. Uma cena rara no cinema brasileiro.

“A cana é quem traz meu alimento. A cana é cem por cento, porque sou dependente dela. Sem ela não tem vida pra Zé Duda. Se não for cana de açúcar, nada mais eu tenho pra ela”.

Uma das coisas que nos define enquanto brasileiros é a escravidão, mas também a possibilidade de dentro dela fazer explodir cores, cantos e crenças como possibilidade de suportar tamanha dor.

Perseguindo o sublime paradoxo de filmar o homem sem imagem, Geraldo e sua equipe conseguem percorrer quase todos os dispositivos que já foram lançados mão pelos documentaristas ao longo da história do cinema: entrevistas, re-encenações, voz-off, diretor entrando no filme...

Mas é exatamente numa Casa de Ubanda que o paradoxo se encerra e aquilo que se negou a atualizar-se durante todo o filme, desce num Peji de Caboclo como uma montagem da imagem do Brasil. O filme é uma busca, uma insistência em determinada questão. Ao ser indagado em que o Peji tem haver com Abreu e Lima, Geraldo resume a história do herói como resposta, de modo que não sabemos se é do personagem ou dele mesmo que ele fala. O peso do virtual se atualiza, a verdade encontrou quem ela queria e o tempo perdido foi redescoberto num memoriável signo da cultura brasileira. A busca por saber quem era Abreu e Lima, o homem sem imagem, levou o filme a redescobrir a imagem do Brasil. Talvez porque se trate menos de uma ação voluntária da memória e mais uma ação involuntária da imaginação: a percepção e a lembrança rumam então para o futuro naquela estrada que não se cansa de passar.

“Tudo isso me parece sonho”, mas talvez não pareça.

2 comentários:

rodrigo disse...

n vi o filme, e fiquei com a impressao q seu texto cumpre o principal destino de uma crítica q é o de alargar o sentido da obra. quero muito ver o filme e poder provar disso.

Isoldinha disse...

Marcelo,

Foi muito emocionante ler esse texto que toca com tanta claresa questões que de fato foram propostas nesse filme. Uma crítica que analisa belamente essa proposta e chega em pontos muito importantes dessa obra.